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O velho sambista

Um sorriso novo penetra o ar sereno da favela
É um gesto silente de uma boca velha
E não é de alegria ou de nervoso
Nem de vilania vingativa
É um sorriso de saudade

O dono satisfeito desse sorriso fugidio
Repousa seu porte canonizado pela fé alheia
A fazer a singela banqueta de pedestal
Lembra
E está só
Como todo santo está
E sorri
Como nenhum santo pode
Lembra
E em suas sacras memórias
As pupilas tocam a religiosidade de tempos idos
Os tímpanos ainda vibram com os hinos-enredo
Revê os milagres realizados
Em tantas procissões momescas de sua Escola
Naqueles desfiles cortejados pelas multidões delirantes
Nas promessas cumpridas em dar alegria aos devotados

Mas hoje
Numa saudade incontrolável
Que um passado bem vivido pode dar a um hoje
No ponto mais alto de seu altar
Sobre o sol a se refletir no zinco
Acima da alvenaria sem acabamento de seu santuário
Na penumbra dos cultos extintos
Sem lamentos ou resmungos
Lembra
Olha a cidade de fiéis ingratos derramada a seus pés
E levanta suavemente o canto da boca

“Lá em Xerém, quando eu mando um caô, todo mundo sabe”
– Zeca Pagodinho –

Os números finais da apuração do primeiro turno chamaram a atenção para fenômeno curiosíssimo. Uma candidatura, a de Marina Silva, conseguiu perder mais da metade dos votos que supostamente chegou a ter. Esclareço a propositura com matemática simples que até nós jornalistas conseguimos fazer.

Marina, segundo as pesquisas, logo após a morte de Eduardo Campos, turbinou os votos do PSB, levando os 8% do pernambucano para 20% com seu nome confirmado na disputa. Quantidade substancial de crescimento esperada, até devido ao nome dela ser mais conhecido do que o dele em território nacional. Vida que segue e eis que, vulcanicamente, pouco mais de uma semana, a nova candidata apresentou 34%, empatando com Dilma na primeira posição. Pois de seus 20%, ou 28,6 milhões de votos, eruptou-se para 34%, ou 47,6 milhões de votos. 19 milhões de votos em menos de dez dias. Tão somente a soma das populações de Rio e São Paulo, ou mais de 23 vezes a população total do Acre, seu estado natal. Um fenômeno impressionante. Só issozinho. Quanta popularidade instantânea, minha gente.

Mas, porém, contudo e tantas outras adversativas que existirem, Marina não se sustentou e, como as pedras expelidas dos vulcões, subiu alto para quedar-se gravitalmente. Estranho, patético, surpreendente, o resultado final do primeiro turno deu-lhe 22,1 milhões de votos, ou 15,4% dos votos totais. Oh! Estão lendo isso mesmo? 15,4% dos votos totais? Mas como os 47,6 milhões viraram 22,1? Bem, poderíamos explicar com um verso de Beto Guedes e Ronaldo Bastos: “Muitos se perderam no caminho”, ou atribuir o descenso espantoso às tuitadas malfadadas do Malafaia. Poderíamos atribuir a tanta coisa entre o céu e a terra que ia faltar atmosfera.

Todavia, entretanto, adversando novamente, minha paupérrima opinião é de que a política acreana jamais teve 34% das intenções em pesquisa nenhuma. Se assim fosse, estaria caracterizada a mais fragorosa derrota eleitoral do Brasil recente. No espaço de um mês, perder assim 25,5 milhões de votos? Haja pedra para ser lançada do vulcão, minha gente. O total dos votos finais de Marina (22,1 milhões) conseguiu ser 3,4 milhões menor do que os votos perdidos por ela em mês e pouco. Quanta esquisitice, seria melhor ter os números que perdeu e não os que realmente teve.Quanta saudade Marina deve ter sentido dos dias pré-primaveris quando passeou, supostamente, nas nuvens mais altas do fim do inverno (e tome de lembrar de “Sol de Primavera”, do Beto e do Ronaldo). Piamente, não creio que ela protagonizou esse vexame.

Cá, do cerne de minha estupidez zurrante, desconfio que esses números nunca existiram. Foram inventados pelas pesquisas, foram manipulados, foram corrompidos pelas pesquisas e com um propósito malicioso: tentar emplacar uma candidatura anti-Dilma, uma vez que Aécio não demonstrou fôlego para ocupar esse lugar. Com o passar do curto tempo e percebendo que a estratégia não colou, a queda de Marina foi evidente, Aécio voltou a apresentar seus números de sempre (terminou com 24,4% dos votos totais) e tudo como d’antes no quartel de Abrantes para os institutos de pesquisa. E o que é que tem? Foram, afinal de contas, apenas o equivalente a 1% por dia, ou 1,4 milhões de ingratos, ou indecisos, ou melívolos, ou confusos. Ou inventados.

É verdade que devemos considerar o aumento dos não votos (abstenções, nulos e brancos) que saltaram de 16% para 29% no resultado final (só atrás do total de Dilma). No entanto, adversando novamente, é óbvio que os não votos, aumentados em 13%, combaliram números de todos os candidatos, naturalmente, não sendo um dado exclusivo da ex-senadora.

Conclusão final: um engodo polpudo, uma falácia numérica, uma cortininha de fumaça que, quando se dissipa, revela que o mágico não conseguiu se esconder do público. Essa é minha paupérrima opinião, vinda do cerne da minha estupidez zurrante, para um fato tão bizarro.

Ah, sim, uma última bedelhada: “a lição sabemos de cór, só nos resta aprender”. Valeu, Beto Guedes. Valeu, Ronaldo Bastos.

E nada mais

Nada mais primitivo

Nada mais sacro

Nada mais alegre

Nada mais indolente

Nada mais sóbrio

Nada mais polêmico

Não me levem a mal

 

Nada mais singelo

Nada mais devasso

Nada mais nostálgico

Nada mais sonoro

Nada mais divino

Nada mais próximo

Em qualquer local

 

Nada mais simplório

Nada mais impreciso

Nada mais folclórico

Nada mais comunista

Nada mais fácil

Nada mais aguardado

Chame o pessoal

 

Nada mais puro

Nada mais desnecessário

Nada mais querido

Nada mais cristão

Nada mais saudável

Nada mais comentado

Et, cetera e tal

 

Nada mais belo

Nada mais incerto

Nada mais louco

Nada mais justo

Nada mais humano

Nada mais infinito

Que um carnaval

Nesta quinta-feira, dia 28, lanço meu sétimo livro. O quinto de poesia.

Imagem    

      Eu sou contra biografias não autorizadas. Entre os muitos questionamentos feitos em torno da questão, fico com o argumento mais cru e simplório: o biografado, ou sua família discordam da narrativa.

     Ora, ora, o fato de alcançar fama inibe a vontade individual? Aí vem um sujeito expondo vidas, impondo sua narrativa aos fatos, associando a imagem de outrem – eternamente – a fatos conseguidos muitas vezes sem embasamento algum e o biografado que se vire com o processo jurídico? Isso é injusto demais.

     Falo na condição de biógrafo de três sambistas: Maçu da Mangueira, Mestre-sala Delegado e Manoel Dionísio. Quanto a valores, esclareço que no caso do Maçu quis dividir os 10% do valor de capa com o filho dele, Waldyr Claudino. Diante da recusa, passei a comprar as biografias com desconto de autor e distribuir para quem não tem grana para adquirir, inclusive netos do Maçu.

     No caso do Delegado e do Dionísio, que foram biografados no mesmo livro, o valor foi repassado integralmente para o Mestre Delega, enquanto vivo, já que Dionísio concordou comigo na ação. Após seu falecimento, recebi apenas um repasse e o destinei tal e qual fiz com os repasses do Maçu.

     Vejo ainda uma incoerência muito grande no argumento sobre valores. Caetano, Roberto Carlos, Chico e Gil estão de olho no lucro de suas biografias? Se estão, não creio que seja absurdo, afinal a exposição será sobre a vida deles. Mas e quanto aos autores das biografias e suas editoras? Não estão de olho nas cifras? Bem, se não estão, que tal biografar sambistas semi-anônimos?

Poema Skindô

Caso eu visse Deus

Téte-a-téte

Com minha cara de pivete

Com meu jeito estelionatário

Ia perguntar: “Como é que fica,

Essa alma tão vulgar

Sem altar ou relicário

Sem um ronco de cuíca?”

 

Caso eu com o Senhor Deus

Cruzasse o bigode

Ia perguntar: “Como é que pode,

Um paraíso tão paradão?”

Sem girar porta-bandeira

Sem pastoras da Mangueira

Ainda por cima – que absurdo!

Sem um surdo de marcação

 

Caso Deus me desse audiência

Ia lhe pedir clemência

Por não querer cruzes com farpas

E ao invés de anjos com harpas

Ia organizar suas hordas

Com um violão sete-cordas

E um naipe de tamborim

Ao santo com cara de Baco

Arranjaria um cavaco

E um pandeiro pr’um querubim

 

Mas eu nunca vou ver Deus

Seus semblantes

Ou face-a-face

Pois antes que eu lhe cobrasse

O prazer, o sofrer e o caramba

Minha alma…

Minha pobre alma…

Se tornaria Samba

Essa foi contada pelo meu super fantástico amigo Alexandre de Castro, conhecido como Branca.

Ontem, o DJ e astro internacional David Guetta deu entrevista ao canal Multishow, em razão da apresentação que tinha acabado de fazer, no palco do Rock in Rio.

Ao ser perguntado sobre a Ivete Sangalo, que se apresentara antes dele, respondeu que não conhecia, mas gostou do que viu. O entrevistador insistiu sobre o conhecimento de Guetta em relação a música brasileira. O DJ contou um episódio curioso: em visita anterior ao Rio, pegou condução particular contratada e o motorista colocou um vídeo para ele assistir. Ficou maravilhado e declarou isso aos telespectadores do Multishow.

O entrevistador traduziu dizendo que ele ficou maravilhado com o DVD da Ivete. Erro de interpretação.

O DVD era do sambista Roberto Ribeiro, com imagens em preto e branco e foi inclusive dado de presente ao David na ocasião.

Quem encantou o astro internacional foi Roberto Ribeiro,  e não Ivete Sangalo (deixando claro que ambos tenham capacidade para tal).

Como sei disso tudo? Ora, o motorista da van que conduziu David Guetta, de seu hotel em Copacabana até o alto do Corcovado, foi o próprio Branca, meu irmãozinho desde a infância.

Narro o fato imaginando uma conjectura. Bem que o DJ poderia mixar um samba do Mestre Roberto Ribeiro numa dessas apresentações…

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Mestre Roberto Ribeiro